NOTA: 8,5 / 10

Direção: Paco Plaza, Jaume Balagueró
Roteiro: Luis Berdejo, Paco Plaza, Jaume Balagueró
Elenco: Manuela Velasco (Ángela), Vicente Gil (Policial), Ferran Terraza (Manu), Pablo Rosso (Marcos), Martha Carbonell (Sra. Izquierdo)

Uma jornalista decide fazer uma reportagem para relatar o cotidiano do quartel do corpo de bombeiros passando uma noite com eles. Ao acompanhar um dos chamados noturnos, vive um situação aterrorizante em um edifício onde situações bizarras começam a acontecer.

rec2007

Este é o mote de REC, produção espanhola que tem a mesma abordagem narrativa de “A Bruxa de Blair”, isto é, uma câmera subjetiva que segue os protagonistas ao longo de toda a história. Neste caso, a câmera é controlada pelo cinegrafista Pablo (que jamais é mostrado na trama) que acompanha a jornalista Ángela em suas entrevistas iniciais no corpo de bombeiros e, posteriormente, no edifício onde a ação se desenvolve.

REC é muito bem sucedido ao tentar reproduzir os moldes da composição de um documentário, justificando de forma leve e natural a abordagem subjetiva já nos primeiros minutos da trama quando vemos Ángela – Manuela Velasco, em ótima atuação - entrevistando os bombeiros, reclamando do tédio e até alertando o cinegrafista para “cortar” o que fosse desnecessário nas entrevistas.

Além disso, ao longo de toda a narrativa, a direção trabalha muito com a idéia de fazer a câmera, parte do filme, tornando-a um objeto da própria trama. Em uma das cenas, por exemplo, há uma elipse (a câmera é desligada propositalmente pelo cinegrafista) e logo após, é re-ligada: o que vemos na sequência é uma tomada do chão; não demoramos muito a constatar que uma criança a acionou.

O som também é diegético – ou seja, algo que está dentro do Universo do próprio filme. A direção, acertadamente, visando aumentar o realismo da filmagem que o espectador acompanha, investe em sons naturais, evitando a adição de qualquer efeito ou trilha sonora na montagem. Tal abordagem é muito satisfatória na medida em que contribui para aumentar a sensação da realidade claustrofóbica de se estar preso em um prédio infectado com “sabe-se-lá-o-que” (como exemplo, repare como são bem realizados os avisos da polícia, que se encontra fora do prédio, através de um sistema de som).

Outro grande acerto do longa é deixar claro desde o princípio que se trata de alguma coisa canibelasca, próximo do significante do mundo dos zumbis do cinema – sim, os personagens estão infectados (e por isso o prédio é “lacrado”) e começam a atacar todos aqueles que ainda não tem o tal “virus”. Se em princípio e em teoria, esta clareza poderia mitigar o suspense, acaba, mais tarde, acrescentando em pavor justamente por podermos prever o que está para acontecer a cada um dos protagonistas “saudáveis”.

Neste ponto, uma ressalva: REC não é um filme que assusta o espectador no sentido de causar surpresa como ocorre no já citado “A Bruxa de Blair”. Aliás, a opção por um vídeo de divulgação que mostra o público assistindo a uma sessão do filme e gritando sem parar se mostra completamente incoerente pois não é essa a sua mensagem. Também não é uma abordagem de terror psicológico. O horror de REC se constitui justamente na identificação do espectador (e para isso a câmera subjetiva e os sons naturais) com uma situação extremamente claustrofóbica onde os protagonistas são cruelmente perseguidos – aliás, neste sentido, REC me lembrou muito o bom “Cubo” de Vincenzo Natali. Acredito que grande parte do público que se decepcionou com o filme não o acompanhou da forma como deveria – devido, talvez, a problemas como este, da propaganda fora de contexto, que mencionei.

Além disso, o filme em si também apresenta alguns pontos negativos. Estão situados quase que unicamente nas últimas cenas quando o roteiro tenta estabelecer um espécie de explicação para tudo que está acontecendo. Ora, qual é o interesse em entender o que gerou o vírus, se foi uma mutação genética ou o próprio Diabo em pessoa? Aliás, é realmente um vírus? O que realmente importa, a grande motivação de toda a trama, é como vamos (protagonistas e espectadores) sair daquele lugar, o importante é, portanto, sobreviver e não “descobrir”. Infelizmente, esta idéia é distorcida com um final repleto de cenas clichês com o objetivo de justificar o que sucedeu. O que vemos são fotos de jornais e uma explicação gravada em um dispositivo de som. Além disso, a cena final também é prevísivel, típica de filmes subjetivos do gênero.

Apesar disso, REC é uma experiência de identificação muito interessante e angustiante, revelando-se um boa surpresa ao desenvolver um terror ímpar, essencialmente físico: sabemos exatamente o que enfrentamos mas não sabemos como evitar isso.

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