NOTA: 7,5 / 10

Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Frank Darabont
Elenco: Tom Hulce (Henry Clerval), John Cleese (Professor Waldman), Ian Holm (Barão Frankenstein), Hugh Bonneville (Schiller), Robert Hardy (Professor Krempe), Robert De Niro (O Monstro), Kenneth Branagh (Victor Frankenstein), Helena Bonham Carter (Elizabeth), Aidan Quinn (Capitão Robert Walton)

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Frankenstein de Mary Shelley é, talvez, a melhor adaptação do grande romance homônimo para as telas de cinema. Apesar de algumas mudanças, principalmente no 3º ato, o roteiro segue o mesmo ritmo da narrativa de Shelley.

No início do filme assistimos ao encontro da tripulação do Capitão Robert Walton que está tentando atravessar o gelo rumo ao Norte com um já doente Victor Frankenstein. Assim, a narrativa estabelece um paralelo entre o capitão e o médico já que ambos são ambiciosos e não medem esforços na busca de seus objetivos: para Walton, o desbravamento do Norte; para Victor, a criação da vida. Tanto o livro quanto o filme, estabelecem esta linha em que ambos os personagens estão, na verdade, lutando em prol da ciência – embora isto não os exima de seus traços de personalidade negativos como o egoísmo e a obsessão desmedida.

Esta cena do gelo serve como introdutória para a história de Victor que será narrada, a partir daqui, em flashback, como se ele próprio estivesse contando o que lhe aconteceu. Apenas nos minutos finais voltamos à missão do Capitão e sua decisão questionável de desistir de seus objetivos depois de, aparentemente, se influenciar pela mensagem moral passada pela história de Frankenstein.

A vida de Victor começa sendo contada quando, ainda criança, conhece sua nova irmã adotiva, Elizabeth, num claro indício de como sua relação com ela será importante na trama. A seguir, presencia a morte de sua mãe, fato que funcionará como justificativa para seu desejo em gerar ou “persistir” a vida: “- Ninguém precisa morrer!”.

Para seguir seus objetivos, Victor muda para Ingolstadt e começa a faculdade de medicina. Lá, conhece um professor que confirma suas convicções sobre a “criação”. Neste ponto, note como o contraste entre o laboratório do médico (todo em tons de sépia, é um ambiente bem silencioso que traz consigo paz e calmaria) e o hospital (apresentado em tons de cinza, repleto de doentes gritando, remete ao caos e a dor) criam uma metáfora sutil que indica o caminho a ser seguido por Victor: de um lado a paz do ambiente a ser usado na “experiência da criação”, do outro, a guerra do lugar onde se deve apenas “manter as vidas”.

Assim, roubando órgãos de cadáveres, Victor inicia sua experiência explicando passo a passo seu método pseudo-científico. Outra metáfora visual brilhante é apresentada nestas sequências - repare que o mecanismo utilizado por ele para criar a vida é um símbolo para o próprio aparelho reprodutor humano: o choque elétrico no corpo morto é gerado através de enguias (espermatozóides) que estão colocadas em um bolsão (saco escrotal) e o corpo, após a carga elétrica, é despejado de uma recipiente com água (útero).

Com efeito, o diretor Kenneth Branagh, nos apresenta de forma muito bem sucedida várias destas composições, principalmente visuais, que significam algo na mensagem do filme. Temos, por exemplo, tomadas de 180º apontando para baixo (conhecida como plongé) sempre que alguma morte expressiva acontece. Em contrapartida, as tomadas são invertidas (contra-plongé) quando o Monstro e a sua Noiva são concebidos. Esta abordagem se torna mais interessante se olharmos tais cenas sobre um prisma dogmático religioso: enquanto nas mortes vemos a cena de cima para baixo ou do Céu para a Terra (desejo de Deus?), na criação, vemos exatamente na perspectiva oposta, ou seja, da Terra para o Céu (Diabo?). Além disso, em 2 momentos no filme, duas pessoas são mortas enforcadas e a câmera não adquire a perspectiva que esperávamos (a justiça dos homens pode não ser o desejo de Deus?).

A criação do Monstro – comumente chamado de Frankenstein, o sobrenome de seu criador – nos apresenta a um Robert De Niro totalmente encoberto pela maquiagem (um dos grandes pontos estéticos positivos do longa) que vai mudando de tonalidade a medida que o tempo passa dando a idéia de cicatrização da “cirurgia”.

Contudo, Robert De Niro não sustenta sua atuação apenas na maquiagem forte de seu personagem, ao contrário, constrói um personagem ambíguo, consciente de suas limitações, dos seus rancores e do seu amor – note, por exemplo, como é tênue a cena em que, apenas com os olhos, através de uma fresta, o Monstro expressa todo o seu carinho pela família que acaba de “conhecer”.

A sequência em que se aproxima desta família pobre só é possível porque o Monstro, negado pelo seu Criador, foge pela cidade e é descriminado pela sua feiúra (ele é até chamado de “causador” da epidemia de Cólera que assola a cidade). Assim, fugindo para o campo, encontra tal familia e se afeiçoa por ela.

O problema é que, enquanto na leitura é possível que nos apeguemos ao Monstro e percebamos sua sensibilidade pois tudo é descrito de forma lenta e gradual, no filme, esta identificação se torna impossível tal é a velocidade em que as sequências ocorrem. Assim, parece que somos obrigados a digerir uma série de informações apenas para que o roteiro se encaixe naquelas 2 horas de trama. Pior: para acelerar o processo narrativo, uma série de “ganchos” são criados. Repare como, por exemplo, em uma determinada cena, Victor ajuda o professor que acabou de conhecer apenas como um artíficio para que este confie naquele. Em outro momento, o Monstro salva o cego da cabana que está sendo agredido pelo Senhorio que veio pedir-lhes o aluguel. Ora, mas de onde surgiu este Senhorio e qual seria seu intuito, a não ser gerar uma situação de tensão para o Monstro e que culminará em fazer florescer seu desejo de vingança?

Além disso, lembremo-nos, toda a história já aconteceu e está sendo narrada por Victor ao Capitão do navio. Logo, algumas informações a respeito da Criatura, principalmente as de ordem emocional, seriam completamente inacessíveis a ele. Claro, a argumentação pode ser direcionada no sentido de que, apesar de não saber, ele mesmo pode ter criado tais contextos movido pela sua própria culpa – é algo até certo ponto plausivel mas que não é sugerido em mais nenhum momento. Aliás, por que, se havia culpa em seu coração, Victor relataria o Monstro como um ser de crueldade indescrítivel nas cenas subsequentes?

Estes pequenos lapsos não impedem que o desenvolvimento e resolução do 2º ato sejam tensos e, também, repletos de questionamentos ao colocar em conflito as duas “conquistas” da vida de Frankenstein: a sua futura esposa Elizabeth e o resultado de seu trabalho. Tal conflito serve de motivação para a consolidação da mensagem de todo o roteiro: Quem é mesmo o Monstro? Criador ou Criatura? Pai ou Filho? Afinal, serve como uma metáfora para a vida: nascemos maus ou o ser humano nos faz assim? Talvez, então, não seja de todo errado chamar a Criatura de Frankenstein a medida que nela podemos projetar seu próprio criador…

“Frankenstein de Mary Shelley” consegue, portanto, atingir um patamar ímpar em obras do gênero: adaptar uma obra clássica da literatura de terror, menos na força de seu roteiro do que como exercício estético-narrativo, porém, sem se esquivar de muitas das questões filosóficas e psicológicas que envolvem todos os seus personagens e suas atormentadas existências.

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