NOTA: 5,7 / 10
Direção: José Alvarenga Júnior
Roteiro: Marcelo Saback
Elenco: Lilia Cabral (Mercedes), José Mayer (Gustavo), Alexandra Richter (Mônica), Reynaldo Gianecchini (Theo), Cauã Reymond (Murilo), Eduardo Lago (Carlos Ernesto), Paulo Gustavo (René), Elias Gleizer (Angenor Antonio)
Quando tomei conhecimento da adaptação para o cinema da peça Divã, baseada, por sua vez, no livro homônimo de Martha Medeiros, senti uma leve ponta de ansiedade. Explico: fui até a peça sem maiores pretensões e expectativas e saí de lá completamente deslumbrado, tanto pelo roteiro como pela ótima atuação da Lilia Cabral que poderia muito bem ser chamada aqui pelo nome de seu personagem, Mercedes, tamanha a sua imersão no papel. Logo, constatar que a brilhante peça dirigida por Ernesto Piccolo seria adaptada para o cinema me deixou com a seguinte interrogação: seria o filme tão bem sucedido quanto a versão teatral e tão tocante quanto o original escrito? Constatar, dias depois, que a Mercedes ia ter a mesma intérprete já me deixou um pouco tranquilo. Porém, a resposta às minhas perguntas só vieram em definitivo nestes últimos dias quanto finalmente tive oportunidade de ver a adaptação desta longa sessão de terapia nas telonas.

O enredo de Divã gira em torno da protagonista principal que, após um casamento “bem sucedido” de mais de 20 anos e uma vida morna, decide buscar apoio na terapia para encontrar seu verdadeiro eu e as causas e efeitos das suas frustrações e incertezas em uma vida aparentemente feliz.
Partindo desta premissa, o que acompanhamos são as idas e vindas de Mercedes ao consultório para dialogar com o terapeuta sobre seu passado e suas aventuras presentes. Aliás, neste aspecto, Divã é muito bem sucedido ao jamais mostrar qualquer intervenção do doutor, limitando-se a focalizá-lo na sombra, sempre como se este olhasse Mercedes, acompanhando-a. Enquanto no teatro estas cenas eram monólogos dirigidos diretamente ao público, no cinema, este tipo de abordagem também permite ao público assumir o lugar do psicólogo, identificando-se com ele. Este aspecto ainda é auxiliado por uma montagem repleta de cortes rápidos e planos-detalhe (repare nos closes nas mãos e lábios da Lilia enquanto ela fala), como se estivéssemos realmente analisando cada gesto ou expressão da “nossa” paciente. Percebam ainda como é inteligente a metáfora visual estabelecida na cena inicial e na cena final – é como se o filme falasse: Agora Mercedes se conhece melhor e nós mesmos (espectadores/analistas) também a conhecemos mais profundamente pois participamos da sua vida ao longo de toda a trama (as sessões de terapia).
As consultas são entremeadas de momentos da vida da protagonista: brigas no casamento (incluindo o velho clichê da discussão na hora do jogo de futebol), decepções (quando descobre que o marido tem uma amante) e novas aventuras (quando resolve, ela mesma, ter um amante). De forma cronológica, o fluxo narrativo envolve o espectador de forma a fazê-lo perceber a jornada de autoconhecimento proposta por Mercedes, desde a sua decisão de ir ao psicanalista (“Acho que não tenho motivos para estar aqui”) até o final quando recebe alta. Neste contexto, é importante a partipação de Mônica (interpreta por Alexandra Richter), sua melhor amiga, que funciona como um contraponto às suas idéias – enquanto Mercedes prega ideais da juventude moderna como o sexo sem amor, Mônica se mostra como uma eterna romântica conservadora. Ela é uma espécie de alter-ego de Mercedes, embora não a oprima, está sempre mostrando quais são as regras do jogo (no caso, as regras sociais). Em um filme com nome “Divã”, é muito sábia a decisão de incluir esta simbologia, mais inteligente ainda é o fato de Mercedes não se prender às regras como se estivesse em um processo profundo de introspecção onde o desejo se sobrepõe a qualquer bloqueio (e o que é a terapia senão o retorno à infância onde não obedecemos regras ou limites pré-concebidos?).
Assim como no teatro, Lilia Cabral encarna Mercedes com um vigor extremo como se estivesse interpretando a si mesma. Mesmo que o roteiro do filme fosse nota 0 (coisa que não é) valeria a pena apenas para vê-la em cena (repare como tenta conter o choro em um momento crítico do final ou como seu olhar aparece vazio na tela logo após imaginar uma cena de sexo intenso com seu marido). Aliás, Divã prima pela boa atuação de elenco. José Mayer, encarna de forma satisfatória Gustavo, um marido resignado e envelhecido que “rejuvenesce” a medida que o filme se desenrola. Mesmo, Cauã Reymond (fazendo o jovem baladeiro Murilo) e Reinaldo Gianecchini (dando vida a Theo, um solteirão boa pinta), não compromentem – apesar de parecer um pouco estranha a relação dos seus personagens com a Mercedes de Lilia Cabral.
Infelizmente, o longa não é só elogios. Na verdade, o que poderia ser um bom filme nacional se torna apenas razóavel devido a vários problemas que mencionarei a seguir.
O mais grave deles é algo recorrente nas produções nacionais deste gênero. Por que há a necessidade de se incluir cenas de humor exageradas em filmes que não fazem parte deste universo? Divã está repleto deste tipo abordagem visando extrair o riso à força do público (vejam, por exemplo, o vídeo da peruca do padre ou a “dança” de Mercedes na festa). Parece-me um pouco de preguiça do roteiro que se apóia no senso comum ao invés de buscar soluções mais inteligentes e refinadas.
Esta “busca” exagerada por humor acaba destruindo uma boa concepção de filme. Vejamos, por exemplo, como o roteiro lida com a perspectiva da história: desde o início acompanhamos Mercedes como se seguissemos os seus pensamentos, tornamo-nos, em muitos momentos, seu analista, prontos para ouví-la; logo, é extremamente artificial qualquer cena que fuja deste prisma. Mas é o que acontece quando, por exemplo, novamente, para gerar risos na platéia, somos levados a ouvir os pensamentos de Gustavo em uma peça de teatro.
Assim como apela para o humor pastelão, Divã também apela para o dramalhão novelesco ao incluir uma morte e um cena dramática forçada em seu ato final – claro, a morte funciona como um contraponto metafórico no contexto da terapia (já que Mercedes está a ponto de receber alta) mas, embora a simbologia seja interessante, a sua implementação soa demasiadamente artificial (perceba ainda como é chavão a trilha sonora da cena que praticamente obriga o espectador a se emocionar).
Além destes infelizes desvios de roteiro, o longa também patina em algumas opções técnicas na implementação estética de algumas cenas. Quando decide, por exemplo, apresentar cenas do início do casamento dos protagonistas, a opção é utilizar o recurso de video amador como se a festa tivesse sido filmada. O truque aqui é evitar o foco nítido em ambos para que não percebamos o óbvio: é impossível imaginá-los 20 anos mais novos naquelas cenas. Acredito que o trabalho de maquiagem, importantíssimo, foi relegado a 2º plano o que acaba causando um certo espanto no espectador: mesmo através das imagens trêmulas e do cabelo estilo anos 70/80 de Mayer, parece que aquilo foi filmado semanas atrás. Como garantir a imersão do espectador em um longa que mal se estabelece visualmente no eixo passado-presente?
Divã vai, portanto, perdendo o seu vigor até o término da trama e não me admiraria se muitos espectadores saíssem do cinema com uma sensação de assistir ao último capítulo de alguma novela Global.
De qualquer forma, o filme consegue trabalhar bem muitos conceitos e não deve ser considerado ruim. Apenas poderia ser melhor, principalmente se tivessem optado por soluções mais inteligentes que mantivessem a linearidade e a originalidade do tema em sua concepção original, que trata da crise da meia idade e das alegrias e tristezas relacionadas a ela, ao invés de se apoiar em situações cômicas desnecessárias e totalmente fora de contexto.
Ps. Achei muito interessante o site do filme que tem, inclusive, um blog da “própria” Mercedes!
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Marcadores (Tags): Alexandra Richter, Cauã Reymond, cinema nacional, Divã, Jose Mayer, Lilia Cabral, Na Poltrona, Reynaldo Gianecchini
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ameei o filme mas no final ela não termina com o marido !
quando ela tava converssando com ele no restaurante eu pensei que ela ia voltar pro marido ai ela sai e ele volta pra tal da Silvinhaa !