NOTA: 9 / 10

Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Don Cheadle (Buck Swope), Julianne Moore (Amber Waves), Heather Graham (Rollergirl), John C. Reilly (Reed Rothchild), Mark Wahlberg (Eddie Adams - Dirk Diggler), Burt Reynolds (Jack Horner), William H. Macy (Little Bill)

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Boogie Nights se passa no fim dos anos 70 e narra a história de um jovem de 17 anos chamado Eddie (Mark Wahlberg) que, dotado de um pênis de 30 cm de comprimento, se torna um novo popstar do gênero pornográfico sob a supervisão do diretor Jack Horner (Burt Reynolds).

Entretanto, é impossível se limitar à esta breve descrição para definir este brilhante filme de Paul Thomas Anderson. Primeiramente, apesar de termos um protagonista definido no jovem que vai oscilando da inocência à “experiência” e decadência do mundo da pornografia e das drogas, temos um sem número de personagens interagindo entre si, com histórias tão interessantes quanto a do jovem garoto.

Todas elas giram em torno do universo dos filmes pornográficos e das pessoas envolvidas em sua produção (câmeras, atores, produtores, diretores, etc). São trechos das vidas dos personagens que vão sendo contados aos poucos e se intercalando sutilmente: temos a história do negro ator pornô mas afficionado por som; da atriz patinadora que não tem pudor ao tirar a roupa mas se nega a tirar os patins; do câmera que é traido discaradamente pela mulher todos os dias…

Neste aspecto, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, é sem dúvida alguma brilhante. Além de criar pequenas histórias quase independentes, Anderson, que repetiria a dobradinha diretor/roteirista em “Magnólia” usando uma estrutura narrativa semelhante, aborda cada uma delas com uma sutileza ímpar.

Repare como, na história do negro Buck Swope (Don Cheadle), temos um personagem totalmente fora dos esteriótipos - ora, ele é até certo ponto romântico e quer vencer na vida honestamente além de ouvir country! (aliás, a cena em que tenta vender um aparelho de som testando-o com músicas country é excelente por inverter toda a expectativa do espectador quanto a essa esteriotipagem).

Mas não posso deixar de lado a melhor das histórias paralelas que é vivida por William H. Macy que interpreta Little Bill (o nome não é mera coincidência), um sujeito sofrido que tem uma mulher que o trai explicitamente e em público, sem nenhum pudor. É interessante notar como Bill vai se amargurando ao longo de toda (sua) história a ponto de a finalizar com “chave de ouro”. Aqui, um grande mérito para a direção que realiza um plano sequência genial no momento do filme em que os personagens se preparam para a virada da década de 70. Percebam como tudo se encaixa: o ritmo da música, a atuação e o movimento dos personagens em cena (mise en scene).

Aliás, os planos sequência são um capítulo positivo a parte: a começar pela introdução em uma danceteria anos 70 em que até a música é incluida no universo diegético (em outra cena, a música até atrapalha a conversa dos personagens); o movimento da Patinadora com a câmera situada no nível dos seus patins (o breve roçar de suas pernas, uma na outra, já é o suficiente para percebermos a sua insinuação sexual); a festa na casa de Jack (entramos até debaixo d’água em cena); até esta excelente cena com Little Bill.

Bill também nos traz outra aspecto da narrativa: a naturalidade como o sexo é tratado em toda a história. É como se o sexo e as demonstrações sexuais de cada um fossem públicas e naturais como o ato de falar ou andar. Em uma das cenas, por exemplo, enquanto a mulher de Bill transa ao ar livre com uma rodinha de pessoas vendo, uma pessoa da produção conversa com ele sobre as lentes a serem usadas na próxima filmagem e quando Bill se mostra extremamente incomodado, a pessoa diz: “Você tem que ir a algum lugar, Bill?”. Na mesma festa, Dirk Diggler (nome artístico de Eddie) é apresentado a um novo produtor que pede: “Me mostre seu pênis!” Por outro lado, note que, embora tudo seja natural e claro, jamais somos direcionados à visão explicíta do “dom” de Dirk – neste caso, por ser algo “exagerado”, ainda temos que ter algum pudor?

Este “dom” é um capítulo a parte em toda a trama. Durante a introdução, Eddie menciona o fato de ter um “gift” (um dom) que vai torná-lo um grande astro (observe quando somos apresentados ao quarto do Eddie ainda adolescente como a câmera é postada na altura de seu pênis insinuando a relevância de seu membro sexual através dessa perspectiva e que em toda a narrativa o pênis sempre aparece em destaque, claramente vísivel nas roupas apertadas bem escolhidas do figurino do ator). Aliás, esta é a mensagem que acompanha Eddie durante todo o longa: a de que ele deve seguir o tal dom já que todas as suas empreitadas em contrário são em vão. Por exemplo, quando já está decadente, imerso no mundo das drogas, tenta a carreira como cantor: acaba dando em nada (note aqui uma ótima e sutil referência crítica ao poder dos produtores e donos dos direitos autorais sobre os reais autores de suas obras).

Mas sua vida não é mostrada apenas nesta última fase, a da decadência. É interessante notar a “evolução” de Eddie/Dirk que inicia a narrativa como um jovem até certo ponto ingênuo, se deslumbra com o dinheiro, a fama (ótima sátira do longa às premiações de filmes ao mostrar o prêmio de “pênis do ano”) e o poder e arrogância (chegando até a se comparar com Napoleão Bonaparte) e acaba caindo no mundo das drogas e até se prostituindo.

É neste ciclo de surgimento-fama-decadência (repare que, no último ato, um Dirk já cansado se encontra com seu possível “sucessor” que irá fazer a roda girar…) que Julianne Moore se destaca no papel de Maggie. Uma personagem complexa responsável por grandes ironias do roteiro e que projeta em Dirk o seu filho distante. Imersa em um desejo intenso de “corrigir” o seu erro com o filho legítimo, Maggie oferece a Dirk todo o seu amor de mãe, oferecendo a ele muito “carinho” através de, nada menos que sexo e muitas drogas. Não seria justo, porém, apenas enfatizar a atuação de Moore pois todo o elenco tem uma atuação uniforme e bem acima da média, mesmo nas histórias de menor destaque, não há interpretação que se destaque negativamente em momento algum.

Boogie Nights peca, porém, ao extender o final um pouco mais do que o devido, mesmo após uma teórica resolução de seu conflito final - diga-se de passagem, uma montagem em planos paralelos excelente em que acompanhamos a vida de Jack sem o ator prodígio e deste sem o cinema pornográfico e seu diretor: uma solução chocante mas bem real. Infelizmente, o Paul Thomas Anderson prefere alongar esta definição em busca de algo mais leve (interessante como ele parece perceber o próprio artifício ao adicionar um texto com os escritos “Bem Depois…” no que seria o final do 3º ato para introduzir o final real…).

De qualquer forma, Boogie Nights é um filme brilhante que, apesar de perder o espectador nos minutos finais (e mesmo no minuto final ainda há uma última sacada genial sobre pudor), o prende de tal maneira no restante da narrativa que faz valer a pena toda a experiência cinematográfica de acompanhar várias histórias interessantes, de roteiro coeso e inteligente, que contam ainda com ótimas interpretações e excelente direção.

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2 Comentários sobre “Na Poltrona: Boogie Nights - Prazer Sem Limites”

  • Bruno Sanchez comentou em 05 de junho de 2009 às 16:18 :

    Alexandre, “Boogie Nights” é um dos meus filmes preferidos.
    Lembro de quando, ainda muito jovem, o assisti e de como fiquei impressionado com sua estrutura.

    De fato, os planos-sequência são excepcionais. Assim como a trilha, o roteiro e todo o trabalho de PT Anderson, que continua a me surpreender a cada filme (o que é “Sangue Negro” senão uma obra-prima, me explica?).

    Gostei da sua crítica. Ela abordou todos os pontos necessários para explicar, enfim, a razão pela qual esse filme deve ser descoberto por todos.

    Um abraço!

  • Alexandre Rivaben comentou em 08 de junho de 2009 às 12:00 :

    Olá Bruno,

    Obrigado pelo comentário!

    Realmente, “Sangue Negro” é d+, assim como Magnólia. Aliás, o PTA é realmente muito bom né?

    Abração!

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