A Favorita

Antes de mais nada devo falar um pouco sobre minha experiência com novelas. Desde criança sempre as assisti. Hábito adquirido por acompanhar minha mãe em seus passatempos televisivos. Lembro de uma época na minha adolescência que via todas, em todos os horários possíveis, passando por Vale a Pena Ver de Novo, horário das 5, 6, 7 e 8. Assisti muitas novelas que considero verdadeiros achados seja por suas atuações seja por seus roteiros originais ou mesmo por tentativas corajosas de fugir do clichê de apresentar enredos completamente direcionados para audiência. Dessas, posso citar três folhetins que considero inesquecíveis: “Roque Santeiro”, “Vale Tudo” e “Que Rei Sou Eu?”. Da primeira não lembro muito mas fiquei com uma sensação boa remanescente. Das duas últimas lembro de muita coisa e devo dizer que as achei realmente sensacionais. Outras muito boas também apareceram: “A Próxima Vítima” teve um enredo um tanto quanto original que convidava o telespectador a ser menos passivo diante da tela; “Pantanal” inovou ao trazer para as telas o héroi e a rotina cabocla, sem falsos encantos ou americanismos desnecessários; “Vamp” foi uma boa comediazinha e, finalmente, todas as do Manoel Carlos (”Laços de Família”, “Mulheres Apaixonadas”, “Por Amor”) são superiores a média principalmente por tocarem em assuntos polêmicos da sociedade e por evitar dogmas e maniqueismos desnecessários, presentes, por exemplo, nas adaptações do Jorge Amado (que nunca me agradaram, apesar de “Tieta” ter apresentado final supreendentemente anti-clichê e divertido para mim).

Há uns 10 anos, desisti das novelas. Perdi a motivação de continuar reservando 1 hora da minha preciosa noite para acompanhar tramas clichês, rocambolescas, extremamente mal escritas e repetitivas. Claro que houve exceções mas de maneira geral as tramas cairam no senso comum de se guiar unica e exclusivamente pela audiência e pela idéia de que o brasileiro sofrido quer se alienar na novela, quer ver o clímax resultar em algo feliz e recompensador, algo que talvez não ocorra em sua vida real - notem aqui que não sou necessariamente contra esse tipo de abordagem mas acho os autores se acomodaram neste senso comum e acabaram por fazer disso uma receita de bolo - ora, não é necessário que se implemente um mesmo tema da mesma maneira sempre. Um final feliz pode ter diversas abordagens e dimensões, ou não pode?

Bem, mas por que diabos então eu resolvi assistir “A Favorita”?

Foram vários fatores. Primeiro percebi que falar da novela motivava muitas conversas com minha mãe que gostava de discutí-la e descrevê-la em detalhes para mim, isso me influenciou, mais ou menos no meio da trama sentei com ela e pensei “não é tão ruim assim!” Segundo que havia muitas críticas com relação a ela e o IBOPE estava bem abaixo da média, “hmm o povo não gosta que mudem o clichê, será que tem algo novo aí?” Terceiro, ouvi falar que havia uma vilã desconhecida, podia ser uma das duas protagonistas… “mais um ponto original…”. Dei uma chance.

Gostei e muito do que vi.

“A Favorita” vai ficar marcada para mim como a novela que resolveu ousar, uma aposta da Globo num autor relativamente novo que jamais tinha feito novela das 8 (o carro chefe) antes.

Além da ousadia, o que mais vi de bom?

O Elenco

Já tivemos que aceitar muita coisa na TV brasileira. Já vimos ex-BBBs sem formação nenhuma serem elevados a protagonistas e rostinhos bonitos aparecerem milhares de vezes apenas pela estética da coisa. Mas parece que isso mudou, pelo menos, senti uma pontinha de esperança ao notar a coesão do elenco da atual novela das 8. Além disso, a experiência de grandes e renomados atores como Cláudia Raia, Glória Menezes, Mauro Mendonça, Tarcísio Meira, Lylia Cabral, Murilo Benício, dentre outros, parece que impulsionou boas atuações dos mais novatos como é o caso do “antes rostinho bonito” e agora “boa promessa” Cauã Reymond.

Citei os mais experientes que fazem uma participação normal para o quilate deles, ou seja, acima de média, mas existem 3 atores que tornaram  “A Favorita” melhor que ela já é. Vamos pela ordem do menos para o mais importante:

- Ary Fontoura: que orgulho eu sinto ao presenciar sua atuação como Silveirinha, mordendo o fino lábio inferior para mostrar o quão desiludido seu personagem está com a vida e o quão sofrido se tornou pelas suas próprias decisões. Ary não deve em nada para grandes nomes do cinema mundial;

- Jackson Antunes: o que falar de Léo, o alcoólatra e machista assumido? O que falar desse ator que se dedica tanto aos personagens a ponto de pessoas não conseguirem separar suas interpretações da vida real (lembrando que Jackson foi quase agredido uma vez na rua pelo seu Léo)? É de orgulhar ver um ator tão dedicado e perfeito em suas interpretações. Seus maneirismos e vocabulário são tão reais que é impossível imaginá-lo interpretado por outro que não seja ele próprio.

- Patrícia Pillar: o trocadilho é infame mas vale: o pilar da novela. Sem Patrícia, “A Favorita” não existiria. Fato. Sempre foi uma boa atriz mas a chance de interpretar uma grande vilã longe dos seus tradicionais esteriótipos de mocinha sofrida a fez incorporar o que eu considero a melhor interpretação para um mal cárater já vista na TV nacional. O que Patrícia faz com sua Flora é espetacular: a falsidade com olhar humilde e carente, o sorriso irônico, debochado, o olhar de escárnio, são mil personagens em uma e ela o faz muito bem, oscilando de um comportamento a outro de forma natural - ou melhor, doentia - mas que soa extremamente verossímil. Sua crueldade e seu humor sutil nos revelam o cárater de sua personagem de forma que basta ela estar em cena para entendermos suas intenções, seus desejos e anseios.

O Roteiro

Flora não seria o que é sem os diálogos precisos e coerentes de João Manoel Carneiro. João consegue manter sua Flora na linha tênue de loucura e maldade, sem exagerar para nenhum dos dois lados. Ponto para ele.

Além disso, a maldade não é simples a ponto de não precisar ser explicada; ele vai fundo na personagem, busca na Flora explicações freudianas para suas ações. Aliás, nas subtramas também temos Freud aparecendo como personagem secundário, seja na mãe que desconta na filha as frustrações por não tido um filho homem que pudesse “salvar seu casamento”, seja na frequentens tentativas da avó de fazer a neta viver o amor que ela não pode viver (falo de Irene, no começo da novela, em relação a Lara e Cassiano).

Aliás, aqui outro ponto para João. É extremamente sábia a idéia de re-utilização de textos já consagrados da literatura. Ou alguém aí duvida que o relacionamento de Irene (Glória Menezes) e Copolla (Tarcísio Meira) seja fruto de uma adaptação original do maravilhoso “O Amor nos Tempos do Cólera” do Gabriel Garcia Marques? - com certeza existem outros exemplos, inclusive sei que há algo similar no sentido da relação entre as duas “irmãs” Flora e Donatela, o grande mote da novela.

Finalmente, João inova ao acabar com a famosa “encheção de linguiça” (lembram-se das inúmeras tomadas do Rio nas novelas do Maneco?) e implementar um conceito de “uma história por capítulo”, isso é, todo episódio acaba com suspense e as coisas se resolvem nos subsequentes como a vida real. Essa alternativa é instigante e motivadora para quem acompanha o dia a dia da novela (e acaba aumentando a necessidade de vê-la, ao contrário de outra em que podemos assistir apenas capítulos esporádicos - normalmente o primeiro e os últimos - que nos revelam toda a trama e seus desenlaces).

A Direção

De Ricardo Waddington é muito boa, bem acima de média das novelas habituais. Já notaram que as cenas em que Dódi (Murilo Benício) aparecia para negociar (subornar, chantagear) alguém do submundo eram tomadas sempre com uma câmera agitada, praticamente amadora? (este tipo de câmera tem sido muito bem utilizada para retratar a violência, associando-a a um documentário, como em “Tropa de Elite” ou “9 mm São Paulo”).

Os Clichês

Eles existem sim mas são melhor desenvolvidos. Não há maniqueísmos (”Ele é mau porque não é bom”) e as ações são bem justificadas e condizentes com cada personagem. Aliás, creio ser uma tendência: “A Favorita” desenvolve melhor o perfil psicológico de seus protagonistas de forma a justificar o que está por trás daquelas atitudes, sejam elas boas ou vis.

Os Problemas

Também existem. São muitos. Algumas “justificativas” para acontecimentos futuros são muito forçadas, parece que até redigida as pressas (como quando Lara fala em voz alta o endereço onde Donatela estará e um comparsa de Flora ouve a ligação). Não há linearidade de acontecimentos e muitas cenas ficam perdidas no espaço tempo (”ué? Não era noite?”). Apesar de ser um problema de toda obra de longa duração na televisão nacional creio de pode sim ser melhorado.

A Favorita

É uma das minhas novela Favoritas de todos os tempos e entrou para o seleto grupo de novelas que eu indico. Poderia falar mais sobre ela e me arrependo de não ter escrito uma série de textos anteriores abordando detalhes da trama que, agora, tornariam este muito extenso.

Aliás, fiquei muito surpreso ao encontrar nesta semana um artigo elogioso sobre ela na Revista Bravo (que é, na minha opinião, uma revista cultural um pouco mais “elitizada” que dificilmente citaria uma novela assim, como citou). Eis o artigo na íntegra.

E vocês? O que acharam? Vão atirar  pedras no meu top 5? =P

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7 Comentários sobre “O Melhor de 2008 - 5o Lugar: “A Favorita””

  • Priscila comentou em 16 de janeiro de 2009 às 09:19 :

    Riva, concordo com tudo o que escreveu, realmente a novela é fantástica, sou fã do Jackson Antunes, ele está arrasando na novela, Cauã Reymond melhorou pacas, (lembra quando ele estreiou em malhação?), o que achei um pouco estranho, ou agressivo demais, foi a Dedina (ex-mulher do Prefeito) ter falecido daquela forma, entendi como se ela estivesse pagando pela traição e por ter separado os amigos daquela forma.
    Mas sem dúvida, a novela tá imperdível hihihi

  • Ricky comentou em 16 de janeiro de 2009 às 13:32 :

    Eu considero A Favorita a melhor novela dos últimos 5 anos (perdendo apenas para Senhora do Destino).
    Concordo com 100% que você disse sobre A Favorita.
    Muito bom o post!

    []’s
    Ricky

  • Gustavo Ayres comentou em 16 de janeiro de 2009 às 15:48 :

    A-hááááá….

    Acho que você entendeu o comentário, ou pelo menos o Thiagão entendeu, huahuahuahuahahua

  • Alexandre Rivaben comentou em 20 de janeiro de 2009 às 17:06 :

    Olá Pri,

    Concordo plenamente. Não gostei do que aconteceu com a Dedina, acho que ficou uma imagem meio “Maria Madalena”, só faltou ela ser apedrejada (literalmente). Não gostei do enfoque dado pois me passou uma impressão extremamente machista, principalmente o final dela onde assume toda a culpa pela “traição” ao marido, pedido a este para perdoar seu amigo.
    De qualquer forma, como eu disse, houve defeitos sim, mas foi uma grande novela.

  • Alexandre Rivaben comentou em 20 de janeiro de 2009 às 17:06 :

    Gustavo,

    Não entendi o “ahá”! :(

    Ou melhor, será que entendi? É sobre o velho diálogo de você ser “o noveleiro” né? rs

  • Alexandre Rivaben comentou em 20 de janeiro de 2009 às 17:08 :

    Fala Ricky,

    Infelizmente não vi Senhora do Destino.

    Que bom que gostou do texto.

    Um questionamento a todos: muita gente tem dito que o Leo era o pai do filho de sua própria filha, vítima de violência sexual deste e que a conversa final dos dois revelara isso.

    Eu não tinha pensando assim, achei que era apenas uma conversa sobre a culpa do pai por ter tratado a filha tão mal este tempo todo.

    Alguém acha que ela foi realmente filha de estupro do próprio pai?

  • A LINE comentou em 18 de novembro de 2009 às 10:33 :

    S U A L A D O FICAR EU GOSTO ELA PATRICIA , P L L A R

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