Em tempos de eleições e de polêmicas sobre o filme “Ensaio sobre a Cegueira” de Fernando Meirelles, baseado na excelente obra de José Saramago, nada melhor do que falarmos sobre algo que se pode considerar a seqüência do citado best-seller.

Pois é, “Ensaio sobre a Lucidez” se passa no mesmo país em que todas as pessoas estranhamente perderam a visão de forma epidêmica e misteriosa.

Dessa vez, passados 4 anos da cegueira, a eleição no país fictício aparenta correr normalmente até que após a apuração percebe-se que mais de 70% da população da capital do país votou em branco. É feita uma nova eleição e nesse momento os votos brancos passam dos 80%. O estranho é que nessa segunda eleição o governos colocou seus espiões para descobrir os articuladores dessa imensa afronta ao poder democrático e nada foi descoberto.

É instaurado então um estado de sítio. Pessoas são escolhidas a esmo para serem interrogadas, mas o poder do governo fica fraco uma vez que o voto é secreto e não há como garantir se essas pessoas votaram ou não em branco.

Não resta outra solução ao governo senão deixar a capital do país, isolá-la e deixá-la por conta de seus moradores, sem governantes e sem mandantes. Acontece que a cidade mesmo assim se vira sozinha - destaque nesse momento para a maneira até cômica que ele descreve a situação dos garis que estavam de greve e voltam ao trabalho, porém o governo tenta exigir que eles continuem a greve.

Por fim, aparece uma carta que faz com que o governo seja obrigado a quebrar o silêncio de quatro anos e falar sobre a cegueira que assolara a nação - havia um pacto para que não se tocasse no assunto - e isso acaba colocando os personagens principais de “Ensaio sobre a cegueira” na trama e o governo resolve espioná-los. Não posso contar mais para não estragar a história.

Apesar do autor ser declaradamente anarquista e boa parte do livro mostrar o bom funcionamento de um estado anarquista - a capital sem governo funciona tão bem ou melhor que o país governado - não acredito que o livro seja uma ode ao anarquismo. O livro também não parece ser uma crítica ao voto em si mas sim, nota-se claramente, aos poderes denominados “democráticos” que, quando contrariados, se mostram não tão democráticos assim. Critica também as maneiras que esses governos usam para impor seus desejos, onde os fins justificam os meios.

Confesso que enquanto o autor segue nessa linha mais política, o livro é ótimo. A partir do momento em que os personagens do livro anterior entram na história acho que o autor se perdeu um pouco na história. O livro é ótimo mesmo assim mas acho que a primeira metade poderia ser melhor aproveitada até o fim do livro.

O curioso é que apesar de se passar depois de “Ensaio sobre a Cegueira”, o livro não faz parte da chamada trilogia que este faz com “Todos os Nomes” e “A Caverna”.

Vou fazer um esforço para ler esses dois e comentar. Por enquanto, procurer ler este que já fale a pena só pela primeira metade, mesmo que você não goste do final.

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1 Comentário sobre “Ensaio sobre a Lucidez”

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