Ontem fui assistir a pré-estréia deste novo filme nacional, dirigido por Walter Lima Júnior, com um ótimo elenco composto por Rodrigo Santoro, Alessandra Negrini, Cláudia Abreu, Selton Mello, Angelo Paes Leme, Jair Oliveira e André Moraes.

Fui despretensioso, achando que encontraria uma comédia romântica básica do cinema brasileiro e fim.

E não é que me surpreendi? Ah, deixa eu dar uma idéia geral da trama:

Ao ficarem sabendo da morte de Glória Baker (Cláudia Abreu), na Suiça, um cineasta (Dico, interpretado por Selton Mello) resolve fazer um filme com imagens do passado e depoimentos de seus colegas do presente. Combina assim, uma reunião dos amigos em um bar para reviver fatos do passado. Assim, em meio a recordações da década de 60/70 e de relatos do presente, tomamos contato com um grupo de amigos músicos que, naquele tempo, formaram uma banda de bossa nova que sonhava em conquistar o público e tocar no famoso show do Carnegie Hall em 1962. A banda, formada por um quarteto, tinha Joaquim ou Quin (Rodrigo Santoro) no piano, Davi (Angelo Paes Leme) como saxofonista, Geraldo (Jair Oliveira) no baixo e PC (André Moraes) na bateria; não consegue o patrocínio necessário para “conquistar a América”. Mesmo assim, decidem ir por conta própria, em uma idéia bem focada na realidade - uma vez que este sonho norteou músicos como Tom Jobim na mesma década.

Sair do Brasil implica em abrir mão de algumas coisas, como deixar a esposa grávida, no caso de Quin. Entretanto, Quin logo se esquece do seu amor brasileiro pois conhece Clara (Cláudia Abreu), mulher por quem se apaixona e que se torna o vocal lírico do grupo.

É interessante notar dois fatores que influenciam todo o longa: a música que, por si só dá norte às histórias dos amigos, com canções belíssimas como “Copacabana” (de Braguinha e Alberto Ribeiro), “Quero Você” (de Newton Mendonça) e “Caminhos Cruzados” (de Newton e Tom Jobim) são alguns exemplos de canções que não vão deixar você esquecer do enredo por um bom tempo. Além da bela música e de sua ótima coesão com outros elementos, o outro fator importante é a História que acaba agindo como principal determinante nos destinos dos protagonistas. Mais que isso, as histórias paralelas são muito bem contextualizadas dentro da história da nação (aliás, o que é um filme de bossa-nova que não um retrato histórico de uma época áurea?). Repare no diálogo de Clara e Quin a respeito da modernidade de Brasília, por exemplo, ou de quando 3 integrantes da banda passam por uma barreira policial - ainda conhecem pouco a respeito do golpe militar que está por vir e que mudará suas vidas para sempre.

O trabalho de direção está primoroso, desde a cenografia - que recria ambientes como a Nova Iorque de mais de meio século atrás; até a fotografia e câmera (achei o máximo a abordagem dada quando o quarteto chega a Nova Iorque, no maior estilo seriado antigo, como “As Panteras”).

Além disso, Walter Lima Júnior, como em outros trabalho seus (”Ele, o boto”, “A Ostra e o Vento”) adiciona uma série de referências à realidade que nos faz realmente acreditar que Os Desafinados existiram. Fato é que o quarteto não é de todo ficcional uma vez que são histórias já vividas ou ouvidas por Walter que dão origem a todas as pequenas histórias e momentos vividos pelos integrantes do grupo (até uma cena que interpretei como um grande clichê, no momento em que Quin e Glória se conhecem, aconteceu de verdade, com o próprio Walter que, aliás, começou o processo de criação da história quando este momento lhe ocorreu!). Assim, o longa se faz com uma forte contextualização histórica repleto de momentos “ficcionais-verdadeiros” que acaba gerando uma sensação quase nostálgica, um desejo de que o grupo tenha realmente existido - e quando acontece algo de ruim com um dos protagonistas, ficamos torcendo para que, ao menos nos letreiros finais, apareça algo do tipo: “Atualmente Fulano toca viola no sertão da Paraíba” - como quando termina a maioria dos filmes “baseados em fatos reais”.

Como se não bastasse, o triângulo amoroso central (Lu x Quin x Glória), opondo a segurança e o altruísmo de um amor verdadeiro e uma paixão ardente, funcionam como uma metáfora da própria música e dos sonhos de seus protagonistas.

Então o filme não tem problemas?

Tem sim. Alguns cortes são bruscos - repare na primeira cena de sexo de Santoro e Abreu que aparece de forma abrupta, forçada, como se fosse necessário um nudismo na trama para prender o espectador a ela (e não é o caso!). Selton Mello interpreta “a ele mesmo” (e isso acaba gerando uma sensação de, o que o Johnny está fazendo aí?) - aliás, fiquei na dúvida se o Selton está dublando o ator (Arthur Kohl) que faz Dico no presente - a voz é idêntica com um pouco mais de rouquidão devido a idade! No geral o elenco está muito bom, com boa adaptação e sem maneirismos do nosso presente (o que tiraria a verossimilhança já que se trata de um filme de época). A opção por manter a ação no passado e trazer relatos do presente, ao meu ver, também é bem acertada.

A grande bola fora, ao meu ver, é o final. Parece que o longa tinha que acabar, já havia se passado mais de 2 horas de filme, hora de finalizar! E isso foi feito, de uma forma até certo ponto cruel com tudo que vimos. “Os Desafinados” mereciam um final afinado como seu início e meio… mas o final acaba fazendo jus ao título. Infelizmente.

De qualquer forma, ainda assim, é outro bom filme do nosso cinema nacional! Estréia dia 29/08 nos cinemas!

Eis o trailer (e que música!):

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